Frangos que “tomam” anti-retrovirais põem em risco saúde pública – revela pesquisa zimbabueana
Uma pesquisa alarmante revela que avicultores do Zimbabué, país que faz fronteira com as províncias moçambicanas de Tete, Manica e Gaza, estão a usar anti-retrovirais para alimentar os frangos, colocando os consumidores em sérios riscos de saúde e comprometendo a eficácia do tratamento do HIV.
Na tentativa de maximizar os lucros, os criadores de frango compram regularmente medicamentos anti-retrovirais (ARVs), destinados a pacientes com HIV no país, no mercado negro para misturá-los à ração das aves.
Segundo uma publicação da Carta de Moçambique, a pesquisa desenvolvida por um Projecto de Jornalismo de Prestação de Contas da África Austral (SA AJP na sigla em inglês) entrevistou duas pessoas que se dedicam à criação de frangos de corte na região de Harare e ambas forneceram informações valiosas sobre a prática.
Zimbabué apresenta uma alta incidência de HIV. Especialistas afirmam que “há preocupações de que a exposição repetida a resíduos de anti-retrovirais possa interferir no tratamento do HIV ou contribuir para a resistência aos medicamentos, embora as evidências directas disso em humanos sejam limitadas”.
De acordo com a mesma publicação, o uso de anti-retrovirais na ração de frangos foi documentado noutros países africanos, principalmente em estudos realizados na Tanzânia e no Uganda. No entanto, essa prática, tal como ocorre em aviários do Zimbabué, não é amplamente conhecida ou divulgada.
De acordo com a Lei de Controlo de Medicamentos e Substâncias Afins do Zimbabué, os medicamentos destinados ao uso humano são regulamentados separadamente dos veterinários, e o uso de medicamentos humanos em animais destinados à produção de alimentos sem a devida autorização é proibido.
Daniel Zulu é o antigo chefe do Departamento de Toxicologia e Clínica do Laboratório de Análises do Governo no Zimbabué e agora gere a sua própria farmácia. Zulu afirmou que alimentar frangos de corte com anti-retrovirais é prejudicial para os consumidores humanos que compram e consomem a carne.
Explicou que a exposição repetida a resíduos de medicamentos anti-retrovirais pode representar riscos para as pessoas que vivem com VIH.
Embora a extensão desses riscos não tenha sido bem estudada, ele é de opinião de que pacientes HIV positivos que consomem aves expostas a ARVs poderiam potencialmente sofrer uma redução na eficácia do tratamento anti-retroviral.
Zimbabué tem actualmente 1,3 milhão de pessoas vivendo com HIV, das quais 1,2 milhão estão em tratamento com anti-retrovirais, segundo dados do Ministério da Saúde e Assistência à Infância.
“Outros consumidores que não têm HIV também podem ser expostos a esses medicamentos por meio de carne contaminada”, refere a mesma publicação.
Um consultor citado na pesquisa descreveu o que considerou características incomuns na carne de frangos de corte alimentados com ARVs. “Quando abatidos, os frangos apresentam uma coloração avermelhada anormal que não é encontrada em frangos de corte criados ao ar livre. O sabor do frango depois de cozido é insosso e difere do sabor natural dos frangos de corte criados ao ar livre”.
(Foto DR)

