OMS tece alerta sobre a “escala e rapidez” da epidemia de ébola na RDC
A Organização Mundial da Saúde (OMS) teceu um alerta nesta terça-feira (19) sobre “a escala e a rapidez” da epidemia de ébola na República Democrática do Congo (RDC), numa altura em que as autoridades congolesas estimam que a doença já matou 131 pessoas e poderá ter infectado 513. Uma situação perante a qual o Presidente congolês apelou a população à “calma”.
Numa mensagem publicada esta terça-feira na rede X , Félix Tshisekedi fez um apelo à calma e disse ter “dado instruções para o Governo implementar imediatamente todas as medidas necessárias para reforçar a resposta sanitária”, neste vasto país da África central.
Identificada pela primeira vez em 1976 precisamente na África Central, a Ébola provoca uma febre hemorrágica altamente contagiosa e provocou mais de 15 mil mortos em África nestes últimos 50 anos.
Ainda ontem, a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICR) anunciou ter activado o seu mais alto nível de resposta ao surto de ébola. “A FICR desencadeou o seu nível mais elevado de resposta de emergência. Estamos a intensificar as nossas actividades, inclusive activando os nossos mecanismos regionais e globais de implementação de emergência”, anunciou à imprensa em Genebra Anne Archer, chefe do departamento de cuidados clínicos e saúde pública em situação de emergência da FICR.
Esta entidade indicou ainda que vai enviar nos próximos dias equipas especializadas em saúde pública e especialistas para as áreas afectadas.
No domingo, a OMS lançou um alerta de saúde internacional para fazer face ao novo surto de Ébola na RDC, tendo convocado uma reunião do seu comité de emergência nesta terça-feira para avaliar a situação.
De acordo com uma publicação da RFI, a RDC já enfrentou 17 surtos de Ébola e tem uma grande experiência na gestão da doença, mas não existe vacina nem tratamento específico para a estirpe do vírus responsável pelo actual surto, chamada Bundibugyo.
As vacinas existentes contra o ébola só são eficazes contra o vírus da estirpe do Zaire, que causou até agora os maiores surtos identificados. A estirpe Bundibugyo causou apenas dois surtos no mundo antes do actual, no Uganda em 2007 e na RDC em 2012. A taxa de mortalidade variou entre 30% e 50%.
Nesta terça-feira, a OMS anunciou que está a analisar os candidatos a vacinas e tratamentos disponíveis que poderiam ser utilizados para controlar o surto.
Até haver algum tipo de tratamento, as medidas para tentar conter a propagação da doença deverão basear-se essencialmente na limitação dos contactos e na detecção rápida dos casos.
Entretanto, a dificuldade é que o epicentro da epidemia está localizado no Ituri, no nordeste do Congo, na fronteira entre a Uganda e o Sudão do Sul, uma zona problemática em termos de segurança, tanto mais que é vizinha do Kivu do Norte e do Kivu do Sul, palco de incessantes conflitos entre o exército e grupo armados como os M23.
Foi neste contexto que a delegação da Cruz Vermelha na RDC considera que “o acesso humanitário e a coordenação entre os diferentes actores, em particular as partes no conflito, poderiam constituir um dos desafios da resposta”, e apelou os beligerantes a garantir “um acesso, uma cooperação e uma coordenação humanitária efectiva”.
A reforçar este apelo, o Prémio Nobel da Paz Denis Mukwege exortou os M23 a reabrirem o aeroporto de Goma que está sob o seu controlo desde Janeiro de 2025, no sentido de facilitar a resposta à epidemia.
Para além de já terem sido registados casos suspeitos no Kivu do Norte, também foram notificados fora do país, no Uganda, um caso e uma morte, dois congoleses que tinham viajado a partir da RDC. O Uganda refere, contudo, que não existe foco epidémico.
A Alemanha anunciou que iria receber e tratar um médico americano que contraiu a doença quando cuidou de pacientes com ébola no Ituri.
Os Estados Unidos, por seu turno, recomendaram “fortemente” nesta terça-feira que os cidadãos norte-americanos não viajem para a República Democrática do Congo, Sudão do Sul ou Uganda, devido ao surto de ébola. Washington, que também pede que os americanos “reconsiderem qualquer viagem” ao Ruanda, anunciou ontem a implementação de controlos sanitários para os passageiros provenientes dos países afectados e de restrições temporárias de concessão de vistos para estrangeiros que tenham estado nessas zonas.
Entre 2018 e 2020, um surto de Ébola já tinha atingido as províncias orientais da RDC, matando cerca de 2300 pessoas para 3500 doentes.
Em declarações à imprensa, a representante da OMS na RDC, Anne Ancia, disse “não acreditar que o surto termine em dois meses”. Segundo a responsável, “a escala da epidemia dependerá da rapidez da resposta, da capacidade de parar rapidamente a transmissão” dos actores no terreno. “Não temos vacina e, portanto, precisamos da cooperação da população”, concluiu.
(Foto DR)

